Salazar : Agora, na hora da sua morte

Autor(es) João Paulo COTRIM, argumento; Miguel ROCHA, desenho

Editora Parceria A.M. Pereira

Ano de Publicação 2006

Número de Páginas 210 p.

Impressão Três Cores

Faixa Etária Recomendável A partir dos 14 anos

Comentário Conhecedor das malformações do antigo Portugal rural, Miguel Rocha ensaia, em simbiose perfeita com João Paulo Cotrim, uma aproximação aos mistérios psicológicos de Salazar.
Sobre ele, já se haviam debruçado a literatura, o cinema ou os cartoons despidos de vida de Abel Manta, dos quais a obra “Salazar, agora na hora da sua morte” parece herdar o rigor frio e marmóreo. O figurino utilizado, as soluções gráfico-estilísticas que fazem uso dos mais diversos suportes (cartas, recortes, pintura, caligrafias, cenários sobrepostos à maneira dos adereços teatrais, subversões dos manuais da instrução primária da época) permitem a ambos os autores, aqui em simbiose perfeita, uma aproximação aos mistérios psicológicos de Salazar: possíveis estados de alma, a imanência mística que parecia sentir, própria de quem na sua juventude havia tentado resistir ao chamamento “desse demónio de Lisboa”.
Que Miguel Rocha conhecia como ninguém as malformações do antigo Portugal rural, isso era sabido. “Borda d’Água” (Bedeteca de Lisboa, 1999) e “As Pompinhas do Sr. Leitão” (BaleiAzul, do mesmo ano) tinham sido exemplo de obras vinculadas à terra e herdando motivos retirados ao neo-realismo português. Por entre pinceladas quase esfumadas a cores fortes, ambos os trabalhos tinham qualquer coisa de chuvoso, triste. Mas nunca como aqui tinha ido tão longe. A ajudá-lo esteve João Paulo Cotrim que em “Salazar, agora na hora da sua Morte” tem o seu momento mais conseguido enquanto argumentista.
(…) os autores partem da realidade para chegar à ficção, trabalhando a partir daquilo que se conhece: o seu ascetismo imbuído de cristianismo monástico, o estadista, lê-se num recorte do jornal “O Século”, “discreto e sereno que reside num prédio silencioso”, inserido numa das páginas, tudo detalhes fúnebres de um destino que Cotrim e Miguel Rocha traçam numa lógica cruel de estranhos presságios.
(…) Mais do que uma aproximação ao território da História, “Salazar” inscreve-se a partir de modelos visuais identificáveis. Não mostra aquilo que queremos ver mas a forma como ambos o vêem, aquilo que ele virá a ser. Em novo, o retrato é de o Salazar enquanto jovem velho. Depois, entre Deus e a tentação de uma carreira eclesiástica, sucede-se a retórica de dedicação à Pátria. A partir daí, e mais do que nunca, as frases e imagens vão-se sucedendo como responsórios e missais sofridos. Tudo se inscreve em círculos, com um preto-e-branco literalmente a entrar tanto no quotidiano mais mundano, com os mais directos colaboradores e condiscípulos como em espaços íntimos, que submerge o livro como um autêntico lençol mortuário. (…) © Nuno Franco

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