Papá em África

Papa_in_Africa_coversAutor(es) Anton KANNEMEYER

Editora MMMNNNRRRG

Ano de Publicação 2014

Número de Páginas 64 p.

Impressão Quatro cores

Faixa Etária Recomendável A partir dos 14 anos

Comentário Anton usa muitas vezes o pseudónimo de Joe Dog, criado em 1992, para assinar BDs, porque ouvia música punk e entrou naquele esquema do pseudónimo podre, como é hábito dessa subcultura. Além do mais, nesse mesmo ano juntamente com Conrad Botes (…) tinham criado revistas de BD bastante polémicas na África do Sul. A dois anos antes do fim oficial do Apartheid, um pseudónimo sempre ajudava a ter menos problemas com a sociedade africânder. O título mais famoso foi o Bitterkomix, onde Joe Dog e Botes faziam BDs que chocavam os africânders e os supostos liberais ingleses, denunciando a loucura ideológica e religiosa do Partido Nacional, perito em segregação racial e deseducação sexual e colocavam em questão a identidade do sul-africano, especialmente a do homem branco. Não será à toa que o artista Joe Dog tenha colaborado com os Die Antwoord, também eles iconoclastas com os códigos de identidade naquele país.

Papá em África é uma crítica à dominação racial e colonial que atravessa, ainda hoje, em pleno pós-apartheid, a sociedade sul-africana, mostrando como certas estruturas sobrevivem à destruição dos quadros legais que lhes deram origem. Mas não se enganem, não vão encontrar na obra de Anton, caminhos ou sonhos para uma “nação arco-íris”; nem é oferecida nenhuma reinvenção do lugar do negro na BD ou alguma espécie de “herói” negro da resistência que pudesse ser “voz” da população negra sul-africana, de que Anton, aliás, na realidade não faz parte nem tem a pretensão de ser.

O objectivo central de Papá em África é pontapear com escárnio e pontaria certeira a hipocrisia e a (má) consciência da África do Sul branca, num pós-apartheid lobotomizado. Anton sampla e crítica corrosivamente o imaginário colonialista e racista, como aquele oferecido por Hergé em Tintim no Congo (1931), álbum que Anton admite ser a sua Bíblia visual, onde volta sempre para sacar mais uma imagem ou uma sequência narrativa.

Numa entrevista o autor adverte sobre esse livro de Hergé: (…) eu penso que não é um bom álbum, é mais direccionado para um público infantil. E é aí que o problema reside para mim. Porque se fosse dirigido para um público adulto, ele funcionaria melhor. Mas porque é para crianças, elas vêem os estereótipos e (…) pensam que esses estereótipos são reais (…). Eu lia o álbum com a minha filha, quando ela era muito jovem, talvez com dois anos, e a certa altura, ela perguntava-me: “o que este macaco está aqui a fazer?” e eu dizia-lhe: “Isso não é um macaco. É uma pessoa negra.” E ficava completamente confusa, não conseguia perceber: “estes são os macacos!”

Após processos judiciais, nos últimos anos e em alguns países (como no Reino Unido), o acesso à obra Tintim no Congo tem sido restringido à população adulta ou explicitamente sinalizado. Na sua terra natal, na Bélgica, Tintim no Congo, apesar da acção judicial instaurada pelo congolês Bienvenue Mbutu Mondondo em 2007, continua a circular sem problemas. Recordamos que Mondondo queria que a edição deste álbum de BD tivesse uma introdução a explicar que se trata de uma obra feita sobre a perspectiva colonialista da época, para que os estereótipos racistas que o álbum vincula pudessem ser entendidos à luz dos nossos dias. Tal não foi permitido e os fãs aplaudiram cegamente o veredicto sem se olharem ao espelho.

Em Portugal, o primeiro país a traduzir a obra de Hergé, pelas mãos do padre e sociólogo Abel Varzim e por Adolfo Simões Müller, director do jornal infantil O Papagaio, Tintim no Congo foi rebaptizado em 1939 precisamente para essa publicação como Tim-Tim em Angola (seja como for para muitos ainda hoje, África é apenas um país enorme). Aqui, a obra não é alvo de qualquer controvérsia e ainda hoje conseguimos encontrá-la sem dificuldade ou especiais advertências nas secções infantis/ juvenis das livrarias. Na edição de 1996, da Verbo, no seu interior continua lá a degradante expressão “Siô”…

Chegamos ao fio condutor que liga o trabalho de Anton a Portugal, em que só a MMMNNNRRRG é que poderia editar um álbum destes – perdoem-nos a falta de modéstia. Esta selecção da obra de Anton, quer como autor de BD quer como pintor deveria reavivar todos os “traumas” que o branco, seja ele sul-africano, europeu ou português, tem em relação ao negro, fazendo repensar como a relação com esse outro é constitutiva da própria concepção de si mesmo e de como esses espinhos históricos que são a escravatura, a colonização e a segregação racial estão cravados no convívio e interacção social, nas relações político-económicas entre “norte e sul” e no próprio capitalismo. A crítica à sociedade sul-africana do pós-apartheid cabe que nem uma luva a países ex-colonialistas como o nosso. Poder-se-á estender a crítica de Anton em Preto e Die Taal à questão da lusofonia e da língua portuguesa? Vejam-se palavras como “catinga”, “escarumba”, “mulato” ou expressões como “trabalhar como um preto”, “e eu sou preto, não?” Poderemos nós encontrar em fenómenos como o do pseudo-Arrastão na praia de Carcavelos, criticamente esmiuçado no documentário de Diana Andringa gratuitamente disponibilizado na Internet, como sinais parecidos àquela distorção da realidade fabricada pelo misto de sentimento culpa e preconceito da população branca sul-africana que os faz temer e esperar uma “revolta” bárbara dos negros?

Será que África do Sul desmemoriada do pós-apartheid, criticada por Anton, tem alguma semelhança com o Portugal “pós-colonial” que teima em vangloriar-se dos “Descobrimentos” (veja-se o novo museu inaugurado no Porto, World of Discoveries, mas também os manuais escolares de história) e de uma colonização “branda” (o dito luso-tropicalismo), sem assumir a sua quota-parte na chaga global que é a exploração e subjugação dos países africanos e dos afro-descendentes onde quer que estes nasçam? É que não sejamos ingénuos ou hipócritas, Portugal foi o primeiro e maior traficante de escravos africanos no Atlântico, portanto, um dos maiores responsáveis do chamado “holocausto africano”; foi dos últimos países europeus a reconhecer a independência das suas colónias em África – quem ainda duvidar que leia Viagem ao Fundo das Consciências (Colibri; 1995) de Maria do Rosário Pimentel. Se os portugueses puderam até aqui “fechar os olhos” e “fazer ouvidos moucos” às históricas trapaças portuguesas no Ultramar, eis que com o acelerar da globalização, com o desnorte português e europeu e com a progressiva ascensão a potências mundiais do Brasil (onde o movimento negro e afro-cultural tem peso) e de Angola (onde as chagas da colonização e da guerra são grandes), a história fará rewind e vir-se-á chapar na nossa cara.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: